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Aromaterapia para tratamento de dores

20 Mar

Aromaterapia para tratamento de dores

O entendimento da dor como um importante problema de saúde progrediu bastante. Dos tempos antigos, quando ela costumava ser vista como parte inevitável da vida, que os homens só podiam influenciar parcialmente devido à sua etiologia presumivelmente sobrenatural, foi desenvolvido um conceito fisiológico, em que o controle da dor é agora possível, expandido pela aceitação da influência de diversos fatores etnoculturais. A pesquisa básica também tem ajudado a desvendar os complexos mecanismos da dor e facilitado o desenvolvimento de novas estratégias para o seu tratamento.

Segundo o Professor Michael Bond, médico e pesquisador inglês que se especializou no estudo da dor, a convicção de que o tratamento da dor é um direito humano tem sido aceita por muitos há muito tempo, mas em 2004, a afirmação de que “o alívio da dor deve ser um direito humano” foi considerada tão importante, que foi publicada após o lançamento da primeira campanha global contra a dor, em Genebra.

Um grande número dos doentes que sofrem com dor, majoritariamente nos países em desenvolvimento, não recebe tratamento para a dor aguda e, mais especialmente, para a dor crônica. Pesquisas feitas pela IASP (Associação Internacional para o Estudo da Dor) revelaram que existem várias razões para esse problema, dentre as quais estão a falta de profissionais de saúde adequadamente treinados, a indisponibilidade de medicamentos e o receio da utilização de opioides, devido à crença errônea de que o uso dessas substâncias causa dependência, como citam Andreas Kopf e Nilesh B. Patel, no Guia para Tratamento da Dor em Contextos de Poucos Recursos.

Portanto, para a melhoria do tratamento dos doentes com dor nos países em desenvolvimento é necessário proporcionar-lhes profissionais treinados, não apenas médicos e enfermeiros, mas também os demais profissionais de saúde. Porém, na maioria das regiões do mundo, menos da metade receberam formação especializada no tratamento da dor, mesmo que isso seja uma parte significativa de seu trabalho diário. Em muitos países em desenvolvimento, a preocupação com doenças infeciosas, como malária, tuberculose e acima de tudo HIV/AIDS tem precedência. Portanto, o alívio da dor não é a grande prioridade.

Sendo relegado ao segundo plano, o tratamento da dor continua causando sofrimento e perdas financeiras aos indivíduos e à sociedade, devido à falta de informações cruciais. Todos os profissionais de saúde irão tratar doentes que sofrem de dor. Ela é o principal motivo para as pessoas procurarem ajuda médica. Assim, qualquer médico, enfermeiro ou outro profissional de saúde necessita de conhecimentos básicos sobre a fisiopatologia da dor e deve ser capaz de usar, pelo menos, um simples tratamento de primeira linha, segundo ressaltam Kopf e Patel.

Um levantamento feito por telefone sobre a utilização de tratamento alternativo e complementar (TAC), envolvendo 1.204 adultos britânicos, selecionados aleatoriamente, foi conduzido pela BBC em 1999. Dos entrevistados, 20% utilizaram TAC nos 12 meses anteriores à pesquisa, sendo que 34% procuraram medicina herbária, 21%, aromaterapia, 17%, homeopatia, 14%, acupuntura ou acupressão, 6%, massagem, 6%, reflexologia, 4%, osteopatia e 3%, quiropraxia. Os entrevistados podem ter procurado mais de uma modalidade terapêutica, por isso, a somatória foi maior que 100%, de acordo com dados apresentados por Li Shih Min, no artigo Tratamento alternativo e complementar e dor, publicado pela SBPC-Labjor.

Sendo a aromaterapia uma terapia integrativa, sua abordagem pode complementar o tratamento da medicina convencional. Para isso, é necessário que o profissional dessa área saiba compreender a natureza da dor e sua influência na vida do doente e conheça os métodos que melhor possam auxiliar no tratamento eficaz (seja da dor aguda ou crônica), para minimizar o sofrimento daqueles que o procuram.

Definição de dor

A IASP definiu a dor como “uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a uma lesão, real ou potencial, ou descrita em termos de tal lesão”. Essa definição é bastante sucinta, mas abrange a complexidade do processamento da dor, contradiz as definições excessivamente simplistas, segundo as quais a dor é um evento meramente nociceptivo, e ainda chama a atenção para as diversas influências psicológicas.

A dor é frequentemente acompanhada de emoções fortes. É percebida não apenas como uma sensação descrita por palavras como queimante, compressiva, penetrante ou cortante, mas também como uma experiência emocional (afetiva), traduzida com recurso a vocábulos como agonizante, cruel, terrível e excruciante. A associação entre a dor e a sua conotação emocional negativa é evolutiva. Nosso organismo aprende facilmente a identificar os mecanismos que alimentam a dor para proteger-nos e desenvolve comportamentos que evitam situações marcadamente perigosas e ajudam a reduzir o impacto doloroso e/ou dano físico.

No que diz respeito à dor aguda – e em particular quando o perigo provém do exterior – essa ligação é extremamente útil, uma vez que o comportamento de “evitar a dor” reduz drasticamente os riscos para a saúde. Porém, quando se trata de uma situação crônica, o fato de evitar a atividade e o contato social afeta bastante a pessoa doente, pois ela tende a concentrar-se quase que exclusivamente na dor e essa tendência conduz a um círculo vicioso de dor, medo, falta de atividade, depressão e mais dor.

Fisiologia da dor

De acordo com Nilesh B. Patel, dor não é apenas uma sensação desagradável, mas também uma modalidade sensorial complexa essencial à sobrevivência. Existem casos raros de pessoas sem sensação de dor. Um deles referido com frequência é o de F.C., que não apresentava uma resposta normal de dor face a danos teciduais. Mordia repetidamente a ponta da língua, queimava-se, não mudava de posição na cama e nem transferia o peso do corpo quando estava de pé e não demonstrava uma resposta autônoma aos estímulos dolorosos. Morreu aos 29 anos.

O mecanismo do sistema nervoso de detecção dos estímulos com potencial para causar lesões nos tecidos é muito importante para desencadear respostas comportamentais que protegem o organismo de possíveis danos. Essas respostas consistem em reações reflexas e em ações preventivas contra tais estímulos causadores, como por exemplo forças mecânicas fortes, temperaturas extremas, falta de oxigênio e exposição a determinados químicos. A isso se dá o nome de nocicepção.

O termo nocicepção (em latim nocere – “doer”) refere-se ao processo sensorial desencadeado e dor refere-se à percepção de um sentimento ou sensação que a pessoa designa como dor e descreve variavelmente como irritativa, pungente, persistente, pulsátil ou intolerável. Esses aspectos, a nocicepção e a dor, são separados e, como descrito na abordagem da modulação da dor, uma pessoa com lesões teciduais que deveriam produzir sensações dolorosas pode não apresentar qualquer comportamento que indique dor.

A nocicepção pode levar à dor, que pode aparecer e desaparecer, e uma pessoa pode ter uma sensação de dor sem atividade nociceptiva evidente. Esses aspectos são abrangidos na definição da IASP: “experiência sensorial e emocional desagradável associada a danos nos tecidos, efetivos ou potenciais, ou descrita em função desses mesmos danos”.

A dor costuma ser ensinada como um sintoma da doença e não como uma experiência com dimensões físicas, psicossociais e outras. A dor aguda é de duração curta e tem um padrão de início bem definido. Geralmente, é uma dor somática, localizada, persistente ou penetrante, decorrente muitas vezes de acidentes como picadas de insetos, pequenos cortes e queimaduras, contusões, quedas, etc.

A dor crônica, segundo explica Jane Buckle, no livro Aromaterapia Clínica, persiste além do período esperado de cura e está associada a um processo degenerativo ou patológico crônico, como a artrite, ou tem uma causa de difícil compreensão, como por exemplo na fibromialgia e na síndrome complexa de dor regional.

Etiologia da dor

Existem muitas causas prováveis da dor. Uma dor de cabeça, por exemplo, pode ser originada por estresse, baixo índice glicêmico, excesso no consumo de bebida alcoólica, desequilíbrio hormonal ou tumor cerebral. A dor não tratada causa muito sofrimento aos indivíduos afetados, pois cada um de nós reage diferentemente a expectativas e sentimentos. A dor nos torna vulneráveis e frágeis e influencia nossos relacionamentos interpessoais, nossas finanças, a produtividade no trabalho e as emoções.

O sentimento da dor nos faz compreender como a ansiedade e a tensão podem aumentá-la, assim como o prazer e o relaxamento podem diminuí-la.

Aromaterapia para a dor

Para o tratamento da dor por meio da aromaterapia, os recursos disponíveis são os óleos essenciais – substâncias líquidas voláteis e aromáticas, com características bioquimicamente definidas, que lhes atribuem as propriedades específicas – e os métodos de aplicação através de via externa (inalação e aplicação dérmica) e de via interna ou oral (com ressalvas).

A aromaterapia pode ser muito útil para aliviar dores, com a utilização dos óleos essenciais. Sabe-se que cada pessoa é um ser individual único e possui diferentes visões e sentimentos do mundo que nos rodeia. A percepção da dor e sua intensidade e profundidade dependem de fatores internos como a experiência própria, comportamentos e sentimentos. Raiva, alegria ou medo podem até entorpecer, aliviar ou acentuar a percepção da dor.

Como foi afirmado anteriormente, o organismo vivo aciona diferentes estruturas receptoras de dor, os chamados nociceptores, cuja função básica é sinalizar qualquer estímulo que possa causar danos ao corpo.

Os óleos essenciais possuem componentes farmacologicamente ativos e alguns melhoram a absorção e a potência de remédios ortodoxos para a dor. Vários componentes dos óleos essenciais são analgésicos, isto é, antidor. Essa ação antidor pode ser entendida como uma grande variedade de mecanismos que agem conforme a natureza, a localização e a intensidade da dor e se complementam.

Óleos essenciais analgésicos

Com a utilização dos óleos essenciais analgésicos, a percepção da dor é suprimida, quando algumas moléculas terpênicas desses óleos ocupam os nociceptores, estimulando-os e excitando-os até que se tornem dessensibilizados. Nesse processo, a dor será atenuada. Conforme várias comprovações científicas, os óleos essenciais agem tanto localmente contra a dor como no sistema nervoso central, o que os torna uma alternativa à morfina (opioide) em algumas instituições, como esclarece Dominique Baudoux, em O Grande Manual da Aromaterapia.

Shirley Price cita como sendo óleos essenciais analgésicos e antálgicos os de bétula, camomila, cravo-da-índia, hortelã, lavanda e olíbano. Dentre os óleos essenciais analgésicos, podem-se destacar os de alecrim, capim-limão, eucalipto, funcho, limão, manjericão, pimenta-negra, sálvia-esclareia, tomilho e tea tree.

Segundo Jane Buckle, através da inalação, certos componentes analgésicos presentes no óleo essencial podem afetar os neurotransmissores dopamina, serotonina e noradrenalina em receptores cerebrais, como por exemplo o óleo essencial de bergamota, que pode afetar a plasticidade sináptica dos neurotransmissores.

Por meio do uso tópico, alguns componentes dos óleos essenciais são aquecedores, como o 1,8 cineol no eucalipto, enquanto outros são refrescantes, como o mentol na hortelã. Outros ainda podem ter ação antiespasmódica, como o acetato de linalila na lavanda, ação anti-inflamatória, como o sesquiterpeno camazuleno na camomila-alemã e ação analgésica tópica, como o citronelal no capim-limão.

Embora o uso oral possa não estar dentro do alcance de alguns profissionais de saúde, pesquisas mostram que certos componentes dos óleos essenciais têm efeitos analgésicos quando tomados oralmente. Por exemplo: no Jornal de Gastroenterologia de dez/1997, para determinar a eficácia e a tolerabilidade de uma formulação de óleo de hortelã-pimenta com revestimento entérico (Colpermin), foi realizado um estudo clínico prospectivo, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo em 110 pacientes ambulatoriais (66 homens/44 mulheres, com 18 a 70 anos de idade) com sintomas da síndrome do intestino irritável. Nesse experimento, o medicamento testado foi eficaz e bem tolerado. Em 2014, nova pesquisa foi realizada para avaliar a eficácia e segurança das cápsulas de óleo de hortelã-pimenta com revestimento entérico em comparação com placebo no tratamento da síndrome do intestino irritável ativo. Concluiu-se que o óleo de hortelã-pimenta encapsulado é um tratamento seguro e eficaz a curto prazo para o SII, como relatado por R. Khanna, J. K. MacDonald e B. G. Levesque, no estudo Peppermint oil for the treatment of irritable bowel syndrome: a systematic review and meta-analysis.

Em sua pesquisa Analgesic-like activity of essential oils constituents, Damião de Sousa, da Universidade Federal de Sergipe, resume que, dentre os resultados de 43 componentes de óleos essenciais que tinham propriedades analgésicas, 62% foram monoterpenos, 18,6% foram sesquiterpenos e 18,6% foram de outros constituintes, mostrando o potencial dos óleos essenciais e/ou de seus componentes para funcionar por conta própria ou para acentuar os efeitos de remédios analgésicos.

Óleos essenciais antiespasmódicos

Os óleos antiespasmódicos também são de grande valia no tratamento da dor. Os espasmos são contrações involuntárias dos músculos como tentativa de proteger o corpo, podendo ser a causa ou o resultado da dor.

Os óleos essenciais que possuem propriedades antiespasmódicas estão entre os que reúnem duas grandes famílias bioquímicas: os éteres e os ésteres terpênicos. Os éteres diminuem bem os espasmos neuromusculares e os ésteres são úteis na modulação dos espasmos nervosos. É interessante a utilização associada dessas duas famílias bioquímicas de ações complementares para a composição de uma sinergia de ação antiespasmódica maior e mais completa, como relata Dominique Baudoux.

Óleos ricos em éteres podem ser escolhidos entre os de alecrim qt. cânfora, eucalipto-hortelã, hortelã-pimenta, sálvia dalmaciana e tuia. Óleos ricos em ésteres compreendem os de anis estrelado, camomila-romana, cardamomo, cravo-da-índia, gerânio-rosa, lavanda, lavandim, manjericão, petitgrain de laranja amarga, wintergreen e ylang-ylang.

Óleos essenciais anti-inflamatórios

Às vezes, é possível utilizar óleos essenciais anti-inflamatórios, pois o que causa a dor é a inflamação, um mecanismo de defesa sem especificidade, iniciado por lesões nos tecidos.

A inflamação é um processo complexo que tem início com um foco infeccioso ou um traumatismo articular que dá sinais de alerta que acionam a produção de mediadores. Ela tem como função restaurar o corpo para que ele funcione normalmente o mais rápido possível e pode apresentar como sintomas vermelhidão, inchaço, calor e dor. Nesse processo inflamatório, entram em ação os mediadores químicos como a histamina, quinina, interleucinas e prostaglandinas. A histamina provoca a dilatação capilar e aumenta a permeabilidade dos vasos, a quinina pode causar vasodilatação e contração dos músculos lisos e as prostaglandinas modulam vários hormônios que provocam a inflamação e a coagulação do sangue.

Pode-se deter uma inflamação eliminando a causa, como por exemplo o agente infeccioso. Ao interromper a reação imunológica, interrompe-se a inflamação. Alguns óleos essenciais possuem uma ação imunorreguladora bastante eficaz. Outros agem diretamente sobre a inflamação apenas pela simples transferência de carga elétrica, pois os focos inflamatórios quentes são estruturas com sobrecarga “positiva”. Nesse caso, as moléculas terpênicas “negativantes” vão ceder cargas negativas, a fim de compensar o excesso de cargas positivas, diminuindo a intensidade inflamatória. De outra forma, pode-se explicar que o aquecimento local (hiperemia) acelera o recrutamento dos glóbulos brancos e os fatores sanguíneos que favorecem a reação anti-inflamatória.

Entre os óleos essenciais que possuem ação anti-inflamatória estão a camomila-romana, cardamomo, cravo-da-índia, eucalipto, gerânio, hortelã-pimenta, lavanda, noz-moscada, pinheiro-anão e tea tree.

Bem-estar físico, mental e emocional

Concluindo, verifica-se que a utilização dos óleos essenciais no tratamento da dor deve ser fundamentada com informações sobre suas propriedades e seus mecanismos de ação.

Aromaterapia não se faz somente com a compra de óleos essenciais e sua aplicação determinada sobre a dor. Trata-se de uma técnica que envolve o conhecimento profundo dos óleos essenciais e de suas propriedades, componentes químicos e ação bioquímica e farmacológica nos mecanismos regulatórios dos sistemas do corpo, assim como o conhecimento da ação psiconeuroimunológica que afeta os processos físicos, mentais, emocionais e espirituais.

Os benefícios do processo inalatório sobre as emoções e sentimentos, o efeito dos óleos essenciais aliado ao toque da massagem e a ação dos componentes químicos na aplicação localizada sobre a pele são recursos imensamente valiosos no auxílio do tratamento da dor e na promoção do bem-estar físico, mental e emocional.


Emília Kiyohara – Aromaterapeuta, acupunturista, educadora, Presidente da Aromaflora – Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas em Aromaterapia e conselheira da Abraroma – Associação Brasileira de Aromaterapia e Aromatologia.

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Publicado Originalmente AQUI